quinta-feira, 27 de abril de 2017

A idade é isto...

Foto Júlia Tigeleiro






Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com o meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.


mia couto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

mas tu vieste...

Foto Júlia Tigeleiro



De onde chegaram estas palavras?

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência

Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.


E não havia um nome para a tua ausência

Mas tu vieste.

Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?

Tu vieste.
E acordaste todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.


Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.


Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Joaquim Pessoa

segunda-feira, 17 de abril de 2017

caminhos de sombra...

Foto Júlia Tigeleiro


A noite em sombra e fumo se desfaz…

Florbela Espanca,

porque eu cheguei é tempo de me veres...

Foto Júlia Tigeleiro

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
de solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
e os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 3 de abril de 2017

pedaçinhos de memórias pendurados

Foto Júlia Tigeleiro


Morre-se de tanta coisa
Quanto a mim morro-me de ausência
morro-me com todo este céu a cair-me por entre os dedos;
pedacinhos de memórias pendurados
morro-me também...de melancolia
quando tu, sem eu saber porquê,
não te aproximas nem acenas
ah sim, também se morre de silêncio.


Victor Oliveira Mateus