domingo, 29 de julho de 2018

horizontes quentes e flores do campo...

Foto Júlia Tigeleiro
Foto Júlia Tigeleiro



Foto Júlia Tigeleiro
As águias não deviam ser aves
mas corações  aduncos e com asas;
se olhares a flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão: 
se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 11 de julho de 2018

hoje...

Foto Júlia Tigeleiro





Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que
crescem depressa, como os ciprestes, ou as
que se enrolam a tudo o que aparece nos muros
como as buganvilias. Através delas, vejo o céu
que me traz outras coisas, mais complicadas
do que estas da terra; e também no céu
escolho, hoje, o que não é difícil, a nuvem 
que há pouco parecia eterna e desapareceu;
ou um branco sujo que apagou o horizonte,
por algum tempo, e fez com que todo o
universo ficasse ao meu alcance para nada.

Mas o que é simples também pode ser o
seu contrário. Há uma lógica no interior
deste movimento que faz crescer o cipreste,
ou empurra a buganvilia para o fundo do muro;
e também as nuvens seguem uma direção
precisa, mudando a sua forma à medida que 
se afastam dos meus olhos. A verdade deste
mundo encontra-se no próprio acaso que
determina; e sou eu que tenho de encontrar
as razões para o que não precisa delas,
porque a sua existência se limita a este
perfume de fim de verão, ou à queda
das folhas que se confundem com nuvens.
O mundo é imprevisível como a vida
da borboleta que nasce de dentro da
buganvilia; mas o vento que há pouco soprava,
não me disse nada sobre isso, nem o seu
sopro vago me libertou de folhas e de
nuvens, para que o chão e céu ficassem
limpos. Só a borboleta, no instante do voo,
trouxe a sua luz dissonante para dentro
da natureza; e foi ao encontrá-la,
no meio da terra e das pedras do jardim,
que me apercebi de que nem tudo é simples,
quando a morte se cruza com a beleza.

Nuno Júdice



sexta-feira, 6 de julho de 2018

o verão deixa-me os olhos mais lentos...


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.

As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas – longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor

à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio – nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,

à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Mª Rosário Pedreira, in “A Casa e o Cheiro dos Livros”

quarta-feira, 4 de julho de 2018

folhas leves de doce vento...

Foto Júlia Tigeleiro
"Gostava de te mostrar
o meu labiríntico arvoredo ou
a sinfonia dos meus canteiros;
levar-te ligeiro pela mão
numa manhã deslumbrante de sol
-vês? - aqui, a gravidade das camélias
ali, os pirilampos, infinitos.
Haveria poços e covis de lobos
(portas inteiras de escuridão sonora)
mas também tulipas e girassóis
e rios, entornados em cascata,
e as folhas leves de doce vento.
Gostava de te mostrar
o meu jardim de dentro
(pétalas e pássaros, odoríferos, habitando
a nudez cava dos troncos)
gostava - mas uivam os lobos -
- tu assustas-te."

desconheço o autor





quinta-feira, 28 de junho de 2018

a morada dos pássaros...

Foto Júlia Tigeleiro


Escolher a morada dos pássaros
sobre o oceano,
essa clara morada, vento de esperança,
sem norte e sem sul,
apenas azul,
liberdade e fluir e calor
da luz irradiante.
Escolher o ninho dos teus braços,
e a tua boca, enseada da minha,
os teus olhos, sombrio delírio dos meus,
errante,
escolher-te e não o saber,
como a árvore desconheçe o destino
que faz dela uma promessa do céu.


Joana Lapa, in Lettera Amorosa ( Afrontamento, 2013)















quarta-feira, 20 de junho de 2018

o luar é suave...

Foto Júlia Tigeleiro


"Não fales.
Seria redundante.
Toda a gente sabe que o luar é suave e redondo como uma barriga grávida de amor."


 cores e outros amores - blogue

quinta-feira, 14 de junho de 2018

coisas simples...

Foto Júlia Tigeleiro


Escondo-me atrás de coisas simples,
para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que a minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos,
uma na outra.

excerto de poema de Yannis Ritsos, trad de Eugénio de Andrade