terça-feira, 9 de outubro de 2018

tarde...

Foto Júlia Tigeleiro

O que eu queria dizer-te nesta tarde
nada tem de comum com as gaivotas.

Sophia de Mello Breyner Andresen


...e elas eram tantas que não couberam no meu olhar...

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

diz-me devagar coisa nenhuma...

Foto Julia Tigeleiro



Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como outra solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena
E quando os destinos se cumprem, partimos, mas deixamos sempre para trás um pouco de nós...!!!

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

estradas onde passa o sol poente

Foto Júlia Tigeleiro


Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.

Ruy Belo

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

não caibo nesta tarde...

Foto Júlia Tigeleiro

Não caibo nesta tarde que me desfolhas
sobre o coração. Renovam-se-me sob os passos
todos os caminhos e o dia é uma página que, lida
e soletrada, descubro inatingível como o vento, a rua e 
a vida.

Ruy Belo

domingo, 29 de julho de 2018

horizontes quentes e flores do campo...

Foto Júlia Tigeleiro
Foto Júlia Tigeleiro



Foto Júlia Tigeleiro
As águias não deviam ser aves
mas corações  aduncos e com asas;
se olhares a flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão: 
se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 11 de julho de 2018

hoje...

Foto Júlia Tigeleiro





Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que
crescem depressa, como os ciprestes, ou as
que se enrolam a tudo o que aparece nos muros
como as buganvilias. Através delas, vejo o céu
que me traz outras coisas, mais complicadas
do que estas da terra; e também no céu
escolho, hoje, o que não é difícil, a nuvem 
que há pouco parecia eterna e desapareceu;
ou um branco sujo que apagou o horizonte,
por algum tempo, e fez com que todo o
universo ficasse ao meu alcance para nada.

Mas o que é simples também pode ser o
seu contrário. Há uma lógica no interior
deste movimento que faz crescer o cipreste,
ou empurra a buganvilia para o fundo do muro;
e também as nuvens seguem uma direção
precisa, mudando a sua forma à medida que 
se afastam dos meus olhos. A verdade deste
mundo encontra-se no próprio acaso que
determina; e sou eu que tenho de encontrar
as razões para o que não precisa delas,
porque a sua existência se limita a este
perfume de fim de verão, ou à queda
das folhas que se confundem com nuvens.
O mundo é imprevisível como a vida
da borboleta que nasce de dentro da
buganvilia; mas o vento que há pouco soprava,
não me disse nada sobre isso, nem o seu
sopro vago me libertou de folhas e de
nuvens, para que o chão e céu ficassem
limpos. Só a borboleta, no instante do voo,
trouxe a sua luz dissonante para dentro
da natureza; e foi ao encontrá-la,
no meio da terra e das pedras do jardim,
que me apercebi de que nem tudo é simples,
quando a morte se cruza com a beleza.

Nuno Júdice



sexta-feira, 6 de julho de 2018

o verão deixa-me os olhos mais lentos...


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.

As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas – longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor

à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio – nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,

à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Mª Rosário Pedreira, in “A Casa e o Cheiro dos Livros”