quinta-feira, 30 de março de 2017

já sou de outras coisas...






Foto Júlia Tigeleiro





Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou  fere. Já não tenho pachorra para cinismos, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, sorrir a quem quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismos, hipocrisias, desonestidades e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismos seletivos e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismos ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de caráter rígido, inflexível e tóxico. Na amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência.


Meryl Streep

sinto-me assim...




Ultimamente sinto-me assim... 

segunda-feira, 27 de março de 2017

...tão longe...



(...)
e esta chuva
que ameça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
e de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
(...)

amália bautista



hoje, só hoje...





Foto Júlia Tigeleiro

Shiuuuu! Não faças barulho.
Hoje é dia de prender-me a silêncios, e escutar aquilo que vem de dentro de mim.
Hoje tenho as mãos ocupadas, por isso escrevo com os olhos...








sexta-feira, 24 de março de 2017

ama-me

Foto Júlia Tigeleiro


(...)

Ama-me.
É tempo ainda.
Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ternura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me.
Embora eu te pareça
Demasiado intensa.
E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre
É singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra.
Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?

E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? 

Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos ventura?

Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?

Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.


Hilda Hilst


as palavras que há dentro dos teus poemas...

Foto Júlia Tigeleiro



Fiz a minha casa aqui
tu sabes porquê
escolhi construí-la sobre um rochedo
não para que perdure
mas para que não desabe quando o vento soprar
e por aqui o vento sopra sempre
sabes que não te evito
trago os bolsos cheios dos teus poemas

quando era pequeno trazia nos bolsos
pedras que apanhava no caminho

os poemas são cheios de palavras por dentro
e as palavras que há nas pedras perduram ao vigor dos cinzéis
são como casas construídas sobre rochedos
falam de nós se na infância as levámos nos bolsos
falam de nós como se fossem poemas
e nós escutamos a sua voz
porque expomos as nossas mãos ao silêncio

as pedras estão cheias de silêncio por dentro
como se fossem poemas

as palavras habitam o coração do silêncio
e se eu não sei contar as palavras que há dentro dos teus poemas
como posso saber quantas habitam o coração do teu silêncio

José Rui Teixeira

quinta-feira, 23 de março de 2017

és o mundo todo...

Foto Júlia Tigeleiro


Morreste-me. Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida. Comparência que eu gostaria de poder prolongar. Mantenho a memória acesa com pedaços de imagens que me fazem sorrir.
Deixaste-te ficar em tudo...os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele.




José Luís Peixoto

terça-feira, 21 de março de 2017

rumos inventados...

Foto Júlia Tigeleiro

Caminhar em comum incomodava-o, nem ele sabia bem porquê, e, lentamente, foi procurando o refúgio das veredas. Mas até estas, às tantas, lhe pareciam movimentadas auto-estradas.
Começou a traçar mapas do seu percurso, rumos inventados que apenas existiam dentro de si. No principio gozou a liberdade, o prazer de percorrer uma estrada incólume, original, em que apenas prestava contas a si próprio. Navegava com a lua, viajava com o vento que embalava os pinhais, fez-se regato a observar as nascentes...
Um dia quis partilhar o seu mundo. Olhou em volta, mas tinha sido eficaz na escolha do caminho: não havia ninguém por perto. Então, a pouco e pouco, uma sensação de frio começou a apoderar-se da sua alma, tolhendo-lhe qualquer espécie de harmonia com o cenário inventado. Ainda esbracejou, mas tinha viajado para muito, muito longe, e apenas encontrou o aperto do vazio.


AC




segunda-feira, 20 de março de 2017

tu e eu devagarinho...

Foto Júlia Tigeleiro




Passemos, tu e eu, devagarinho,
sem ruído, sem quase movimento,
tão mansos que a poeira do caminho
a pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
de folhas arrastadas pelo vento,
saibam beber o precioso vinho,
a rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir...
e se a noite quiser, pode cobrir
triunfalmente o céu de nuvens calmas...

De costas para o sol, então veremos
fundir-se as duas sombras que tivemos
numa só sombra, com as nossas almas.


Reinaldo Ferreira

sexta-feira, 17 de março de 2017

vai e sonha...




Foto Júlia Tigeleiro

vai 
com pássaros de bicos exuberantes e sonha...

al berto

a vida é esta incerteza que em mim mora...

Fofo Júlia Tigeleiro



Cheguei.
Sinto de novo a natureza
longe do pandemónio da cidade
aqui tudo tem mais felicidade
tudo é cheio de santa singeleza
vagueio pela murmura leveza
que deslumbra de verde e claridade
mais nada.

Resta vivida a saudade
da cidade em bulício e febre acesa
ante a perpetiva da partida
sinto que me arranca algo da vida
mas quero ir.

E ponho-me a pensar
que a vida é esta incerteza que em mim mora
a vontade tremenda de ir-me embora
e a tremenda vontade de ficar.

Vinicius de Morais








quinta-feira, 9 de março de 2017

nunca foi tão tarde ser depois...

Foto Júlia Tigeleiro


podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue

podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão diretamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste


Pedro Sena-Lino