quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

é no silêncio...

Foto Júlia Tigeleiro


é no silêncio
que melhor ludibrio a morte
não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir


al berto


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

tu...

Foto Júlia Tigeleiro

e depois a gaivota voa sobre o lamento do cais e de novo relembro a noite em que partiste
num orgulho de caravela em busca de uma pérola que bem sabes impossível de colher
vogando na pele do oceano sem ler mais cartas de marear escritas nas estrelas
descobrindo na obscuridade o brilho da ária secreta da solidão das águas
e como este meu porto deixou de ser de abrigo para a nossa voz

mas nem essa recordação mantém o mesmo eco
pois sinto as palavras cada vez mais curtas
e já só queria lembrar-me desse mapa
navegar à deriva pelo teu corpo
percorrer os teus rumos
invadir o teu mar
rasgar o azul
sempre
tu


José Luís
...os instantes...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

hoje...

Foto Júlia Tigeleiro


Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que crescem depressa...

Nuno Júdice

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

o nome que se dá à ausência...

Foto Júlia Tigeleiro




O sótão:
era ali que o mundo começava.
Ainda não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa de música, a tua concha
de areia,

E ainda
o não sabes hoje.

Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio.

E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.


Albano Martins

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

poro por poro...

Foto Júlia Tigeleiro


para aqueles que amam demais...


e quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te
recebia não nos meus olhos, mas em todo o meu corpo, linha por linha, poro por poro.


Mia Couto

inventemos asas até que...

Foto Júlia Tigeleiro


voa comigo nos ombros da noite
enlaçamos como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem

quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

Vasco Gato

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

se me puderes ouvir...




Foto Júlia Tigeleiro





Olha...


O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer 
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo.

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

qualquer coisa que nos muda...

Foto Júlia Tigeleiro



O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro de um novo olhar.


Fiama Hasse Pais Brandão



...E NUNCA MAIS O NOSSO OLHAR É O MESMO..

espero-te aqui...

Foto Júlia Tigeleiro







Levamos a vida a afastar da morte quem amamos.
Mas somos quase sempre derrotados, porque os 
gestos que afastam já estão carregados de morte.


O que há em mim que não quer? Todos os meus
caminhos não quiseram. Nem desvios foram. De
um momento para o outro, chega-se. Ao lugar
onde cada passo tem a decisão de uma queda.
Escorpiões vão de duna em duna. Por um engano.


Hoje, não consigo recompor o teu rosto, e se
nitidamente te imagino, não és bem tu mas uma
qualquer fotografia tua. Hoje, a tua fotografia
apropriou-se de ti: deve ser assim que se começa
a morrer. Quando à nossa volta um corpo 
desaparece nos sinais da sua passagem.

Rui Nunes, Armadilha




...Espero-te aqui, onde a lua se perdeu dos astros, e o mar se esqueceu de partir...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

vesti-me de sombra...

Foto Júlia Tigeleiro






" Vesti-me de sombra e senti o silêncio pousar-me sobre o coração..."


Teixeira de  Pascoaes


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

chegaste...

Foto Júlia Tigeleiro



Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram...
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

Yvette Centeno