terça-feira, 31 de janeiro de 2017

quando acordares...

Foto Júlia Tigeleiro


Quando acordares, já eu terei partido há muito tempo.
Mas, se perguntares, hão-de dizer-te que só viram
o mar - e que o mar é tão imenso
que esconde as cicatrizes de todos os caminhos.

Maria do Rosário Pedreira



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

o aroma do trigo maduro

Foto Júlia Tigeleiro



"Os teus olhos, temperados em procuras, deslumbramentos e esperas, dizem-me que é tempo de repousar da vertigem da viagem, de soltar os idiomas interiores alheios às palavras desenhadas na poeira.
Falas-me, baixinho, da liberdade que mora no silêncio do deserto, mas os corpos são seara sequiosa  de
amadurecer no respirar da poesia que se solta da pele.
Dou-te a mão, dás-me a mão. Ainda me falas de liberdade, mas nos teus olhos a luz do deserto adquire outra
tonalidades com
o aroma do trigo maduro."
AC

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

pássaros na solidão do ar...

Foto Júlia Tigeleiro



As mãos

Essa região desconhecida que nos aproxima e afasta ao mesmo tempo.
Perco-me na penumbra do que queria ter gritado e não pude.
O desejo resgata-nos do abismo,
mas também se ergue o que no admite consolo.
Palavras como pássaros na solidão do ar.


Lucía Estrada, in Sul de Nenhum Norte




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

os dias...

Foto Júlia Tigeleiro



"Os dias são feitos de noites intermináveis
de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mão rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do
coração"

Ana C.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

...esta manhã...

Foto Júlia Tigeleiro




" A manhã recusa o sentido que lhe dão os pássaros."

Rui Pires Cabral


...e dos pássaros,  invejo-lhes a subtileza, e leveza de ser e estar...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

o tempo...

Foto Júlia Tigeleiro







como se fôssemos restos de histórias
num ensaio geral de solidões
o tempo é um argumento
que nos fecha a porta



Maria Sousa 



...exercícios para endurecimento de lágrimas...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

o silêncio...

Foto Júlia Tigeleiro


Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas aves que ninguém sabe de onde partiram.

Vasco Gato










quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

só o verde fala neste tempo de silêncio...

Foto Júlia Tigeleiro






somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores,
espera, pensei em folhas e a primavera explodiu-me na boca.

Maria Sousa

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

NEM UM JARDIM...

Foto Júlia Tigeleiro


Não te via chorar há anos
e nem um jardim, como cenário,
tornou o ato menos doloroso de assistir.
Sei que é difícil fazeres o caminho de volta.
Desapareceu, como a casa,
levado pelos ares do desgosto.

Descansa, um dia poderemos falar
sobre quase tudo, menos a vida
que escolhemos ter.


Marta Chaves

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Já as gaivotas tinham partido...

Foto Júlia Tigeleiro


Quando chegaste
ao entardecer
Já as gaivotas tinham partido
Ainda falaste
Baixinho
Da frescura das madrugadas
Mas parte de mim
Em voo planante
Tinha ido com as aves
E a outra
Cúmplice
Iniciara o desatar dos nós.
Quando chegaste
Ao fim da tarde
Só restava a minha ausência.

AC


...e como as aves me encantam...

PERDEMOS REPENTINAMENTE...

Foto Júlia Tigeleiro


perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a  claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas  nos olhou


José Tolentino Mendonça