sexta-feira, 30 de junho de 2017

finalmente desisti...

Foto Júlia Tigeleiro

" arranquei de mim a morada que eras tu
desisti dos pássaros, afundei barcos, lâminas.
apaguei o calor dos porões como se uma vela
pudesse perigosamente insistir na permanência
desse mundo que era a minha voz..."

Vasco Gato

quinta-feira, 22 de junho de 2017

fala-me...

Foto Júlia Tigeleiro


fala-me dos arcos do céu
onde infinitos pequenos astros
se rebolam sobre a pureza
do teu rosto. Fala-me dos teus olhos,
da paisagem que inventam no luar de azul
onde se adivinham os dias e se pressente
o ligeiro vibrar do novo amor em semente.

escutarei, e das tuas palavras vou tirar
outras que não são para dizer, que trazem
nos lábios o mais intimo segredo disso que é real, 
disso que ignora as paredes do olhar e em tudo
desenha o tão doce horizonte que somos em nós.

mudo ficarei suspenso da tua voz sem saber
ao certo se é verdade ou mentira, se se pode
de facto criar um rosto que nos mostre por completo,
como a pele mostra a mão, a água, o beijo,
sem saber se este sangue e esperança
será suficiente para te encontrar
no rebolar dos infinitos pequenos astros.

vasco gato



quarta-feira, 14 de junho de 2017

ainda que os meus labirintos te confundam...

Foto Júlia Tigeleiro


Deixa-me amar-te em meus silêncios
Na calmaria do teu coração que me acolhe
E onde se desprendem meus sonhos
Em vôos etéreos de plena liberdade


Deixa-me amar-te em minha solidão
Ainda que os meus labirintos te confundam
E que teus fios generosos de compreensão
Emaranhem-se no tapete dos meus enigmas



Deixa-me amar-te sem qualquer explicação
Na ternura das tuas mãos que me sorriem
Escrevendo desejos em versos despidos
Na minha alva tez que cobre e descobre


Deixa-me amar-te em meus segredos
Para que desvendes o que também desconheço
A alma dos meus abismos onde anoiteço
E meus olhos adormecem pelo mistério



Deixa-me amar-te em tuas demoras, longas horas
Em que meu corpo se veste de céu à tua espera
E minhas mãos em frenesim acendem estrelas
Para alumiar-te, ainda que ausente estejas...



Fernanda Guimarães

sexta-feira, 9 de junho de 2017

a alma à flor da pele...

Foto Júlia Tigeleiro



" Trago à flor da pele as coisas que devia esconder, o mais íntimo e sombrio. Podeis ver o meu esqueleto e não só, também trago à flor da pele a alma toda"

Amália Bautista




quarta-feira, 7 de junho de 2017

vai...

Foto Júlia Tigeleiro



Vai antes que os  horizontes se esgotem, os ventos se cansem e asas mirrem...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Quero ser uma ilha...

Foto Júlia Carvalho

Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar,

J.G.Araújo Jorge

sexta-feira, 19 de maio de 2017

o silêncio que procuro...

Foto Júlia Tigeleiro


Há um momento na vida, a partir do qual a alma clama por silêncio!!! Talvez a isso se chame maturidade, mas prefiro achar que a isso se chama necessidade...!!!



terça-feira, 16 de maio de 2017

A paz sem vencedores e sem vencidos...

Foto Júlia Tigeleiro



Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedores e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos


A paz sem vencedores e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedores e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen, in " Dual"



...a paz que tantas vezes procuro dentro de mim e muito poucas vezes encontro...

sexta-feira, 5 de maio de 2017

quinta-feira, 4 de maio de 2017

que os teus dedos me perdoem as palavras...

Foto Júlia Tigeleiro

Que os teus dedos me perdoem as palavras.
Que os teus olhos me perdoem o silêncio.
A fuga não é um ato premeditado.
No mergulho não existe oxigénio suficiente.
Unicamente uma desordem de músculos
que sustentam a ansiedade.
Ficarei só com o meu dilúvio.

in " Vem Adormecer o Dia" de " Francisco"




"A fuga não é um ato premeditado.", mas sim a única forma de seguir em frente...

terça-feira, 2 de maio de 2017

esperar não é pedir muito

Foto Júlia Tigeleiro


ando à espera que me digam de que lado
virá o último pássaro a que darei sustento.

a minha borboleta já cá está há muito tempo.
chegou com o vento da noite
e trouxe-me um nome de árvore.

esperar não é pedir muito,
nem obriga mão alguma
a dar lisura de afago
ao frio que rasga a face.

se alguém souber cantar, não se acanhe.
eu gosto de ouvir, em voz, o que o silêncio conhece.

esperer não é pedir muito, eu já disse:
a solidão contenta-se com pão e água.

Emanuel Jorge Botelho


quinta-feira, 27 de abril de 2017

A idade é isto...

Foto Júlia Tigeleiro






Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com o meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.


mia couto

sexta-feira, 21 de abril de 2017

mas tu vieste...

Foto Júlia Tigeleiro



De onde chegaram estas palavras?

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência

Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.


E não havia um nome para a tua ausência

Mas tu vieste.

Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?

Tu vieste.
E acordaste todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.


Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.


Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.

Joaquim Pessoa

segunda-feira, 17 de abril de 2017

caminhos de sombra...

Foto Júlia Tigeleiro


A noite em sombra e fumo se desfaz…

Florbela Espanca,

porque eu cheguei é tempo de me veres...

Foto Júlia Tigeleiro

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
de solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
e os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 3 de abril de 2017

pedaçinhos de memórias pendurados

Foto Júlia Tigeleiro


Morre-se de tanta coisa
Quanto a mim morro-me de ausência
morro-me com todo este céu a cair-me por entre os dedos;
pedacinhos de memórias pendurados
morro-me também...de melancolia
quando tu, sem eu saber porquê,
não te aproximas nem acenas
ah sim, também se morre de silêncio.


Victor Oliveira Mateus


quinta-feira, 30 de março de 2017

já sou de outras coisas...






Foto Júlia Tigeleiro





Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou  fere. Já não tenho pachorra para cinismos, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, sorrir a quem quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismos, hipocrisias, desonestidades e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismos seletivos e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismos ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de caráter rígido, inflexível e tóxico. Na amizade desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência.


Meryl Streep

sinto-me assim...




Ultimamente sinto-me assim... 

segunda-feira, 27 de março de 2017

...tão longe...



(...)
e esta chuva
que ameça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
e de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
(...)

amália bautista



hoje, só hoje...





Foto Júlia Tigeleiro

Shiuuuu! Não faças barulho.
Hoje é dia de prender-me a silêncios, e escutar aquilo que vem de dentro de mim.
Hoje tenho as mãos ocupadas, por isso escrevo com os olhos...








sexta-feira, 24 de março de 2017

ama-me

Foto Júlia Tigeleiro


(...)

Ama-me.
É tempo ainda.
Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ternura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me.
Embora eu te pareça
Demasiado intensa.
E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre
É singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra.
Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?

E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? 

Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos ventura?

Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?

Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.


Hilda Hilst


as palavras que há dentro dos teus poemas...

Foto Júlia Tigeleiro



Fiz a minha casa aqui
tu sabes porquê
escolhi construí-la sobre um rochedo
não para que perdure
mas para que não desabe quando o vento soprar
e por aqui o vento sopra sempre
sabes que não te evito
trago os bolsos cheios dos teus poemas

quando era pequeno trazia nos bolsos
pedras que apanhava no caminho

os poemas são cheios de palavras por dentro
e as palavras que há nas pedras perduram ao vigor dos cinzéis
são como casas construídas sobre rochedos
falam de nós se na infância as levámos nos bolsos
falam de nós como se fossem poemas
e nós escutamos a sua voz
porque expomos as nossas mãos ao silêncio

as pedras estão cheias de silêncio por dentro
como se fossem poemas

as palavras habitam o coração do silêncio
e se eu não sei contar as palavras que há dentro dos teus poemas
como posso saber quantas habitam o coração do teu silêncio

José Rui Teixeira

quinta-feira, 23 de março de 2017

és o mundo todo...

Foto Júlia Tigeleiro


Morreste-me. Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida. Comparência que eu gostaria de poder prolongar. Mantenho a memória acesa com pedaços de imagens que me fazem sorrir.
Deixaste-te ficar em tudo...os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele.




José Luís Peixoto

terça-feira, 21 de março de 2017

rumos inventados...

Foto Júlia Tigeleiro

Caminhar em comum incomodava-o, nem ele sabia bem porquê, e, lentamente, foi procurando o refúgio das veredas. Mas até estas, às tantas, lhe pareciam movimentadas auto-estradas.
Começou a traçar mapas do seu percurso, rumos inventados que apenas existiam dentro de si. No principio gozou a liberdade, o prazer de percorrer uma estrada incólume, original, em que apenas prestava contas a si próprio. Navegava com a lua, viajava com o vento que embalava os pinhais, fez-se regato a observar as nascentes...
Um dia quis partilhar o seu mundo. Olhou em volta, mas tinha sido eficaz na escolha do caminho: não havia ninguém por perto. Então, a pouco e pouco, uma sensação de frio começou a apoderar-se da sua alma, tolhendo-lhe qualquer espécie de harmonia com o cenário inventado. Ainda esbracejou, mas tinha viajado para muito, muito longe, e apenas encontrou o aperto do vazio.


AC




segunda-feira, 20 de março de 2017

tu e eu devagarinho...

Foto Júlia Tigeleiro




Passemos, tu e eu, devagarinho,
sem ruído, sem quase movimento,
tão mansos que a poeira do caminho
a pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
de folhas arrastadas pelo vento,
saibam beber o precioso vinho,
a rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir...
e se a noite quiser, pode cobrir
triunfalmente o céu de nuvens calmas...

De costas para o sol, então veremos
fundir-se as duas sombras que tivemos
numa só sombra, com as nossas almas.


Reinaldo Ferreira

sexta-feira, 17 de março de 2017

vai e sonha...




Foto Júlia Tigeleiro

vai 
com pássaros de bicos exuberantes e sonha...

al berto

a vida é esta incerteza que em mim mora...

Fofo Júlia Tigeleiro



Cheguei.
Sinto de novo a natureza
longe do pandemónio da cidade
aqui tudo tem mais felicidade
tudo é cheio de santa singeleza
vagueio pela murmura leveza
que deslumbra de verde e claridade
mais nada.

Resta vivida a saudade
da cidade em bulício e febre acesa
ante a perpetiva da partida
sinto que me arranca algo da vida
mas quero ir.

E ponho-me a pensar
que a vida é esta incerteza que em mim mora
a vontade tremenda de ir-me embora
e a tremenda vontade de ficar.

Vinicius de Morais








quinta-feira, 9 de março de 2017

nunca foi tão tarde ser depois...

Foto Júlia Tigeleiro


podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue

podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão diretamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste


Pedro Sena-Lino

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

é no silêncio...

Foto Júlia Tigeleiro


é no silêncio
que melhor ludibrio a morte
não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir


al berto


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

tu...

Foto Júlia Tigeleiro

e depois a gaivota voa sobre o lamento do cais e de novo relembro a noite em que partiste
num orgulho de caravela em busca de uma pérola que bem sabes impossível de colher
vogando na pele do oceano sem ler mais cartas de marear escritas nas estrelas
descobrindo na obscuridade o brilho da ária secreta da solidão das águas
e como este meu porto deixou de ser de abrigo para a nossa voz

mas nem essa recordação mantém o mesmo eco
pois sinto as palavras cada vez mais curtas
e já só queria lembrar-me desse mapa
navegar à deriva pelo teu corpo
percorrer os teus rumos
invadir o teu mar
rasgar o azul
sempre
tu


José Luís
...os instantes...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

hoje...

Foto Júlia Tigeleiro


Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que crescem depressa...

Nuno Júdice

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

o nome que se dá à ausência...

Foto Júlia Tigeleiro




O sótão:
era ali que o mundo começava.
Ainda não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa de música, a tua concha
de areia,

E ainda
o não sabes hoje.

Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio.

E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.


Albano Martins

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

poro por poro...

Foto Júlia Tigeleiro


para aqueles que amam demais...


e quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te
recebia não nos meus olhos, mas em todo o meu corpo, linha por linha, poro por poro.


Mia Couto

inventemos asas até que...

Foto Júlia Tigeleiro


voa comigo nos ombros da noite
enlaçamos como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem

quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

Vasco Gato

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

se me puderes ouvir...




Foto Júlia Tigeleiro





Olha...


O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer 
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo.

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

qualquer coisa que nos muda...

Foto Júlia Tigeleiro



O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro de um novo olhar.


Fiama Hasse Pais Brandão



...E NUNCA MAIS O NOSSO OLHAR É O MESMO..

espero-te aqui...

Foto Júlia Tigeleiro







Levamos a vida a afastar da morte quem amamos.
Mas somos quase sempre derrotados, porque os 
gestos que afastam já estão carregados de morte.


O que há em mim que não quer? Todos os meus
caminhos não quiseram. Nem desvios foram. De
um momento para o outro, chega-se. Ao lugar
onde cada passo tem a decisão de uma queda.
Escorpiões vão de duna em duna. Por um engano.


Hoje, não consigo recompor o teu rosto, e se
nitidamente te imagino, não és bem tu mas uma
qualquer fotografia tua. Hoje, a tua fotografia
apropriou-se de ti: deve ser assim que se começa
a morrer. Quando à nossa volta um corpo 
desaparece nos sinais da sua passagem.

Rui Nunes, Armadilha




...Espero-te aqui, onde a lua se perdeu dos astros, e o mar se esqueceu de partir...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

vesti-me de sombra...

Foto Júlia Tigeleiro






" Vesti-me de sombra e senti o silêncio pousar-me sobre o coração..."


Teixeira de  Pascoaes


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

chegaste...

Foto Júlia Tigeleiro



Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram...
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

Yvette Centeno

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

quando acordares...

Foto Júlia Tigeleiro


Quando acordares, já eu terei partido há muito tempo.
Mas, se perguntares, hão-de dizer-te que só viram
o mar - e que o mar é tão imenso
que esconde as cicatrizes de todos os caminhos.

Maria do Rosário Pedreira



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

o aroma do trigo maduro

Foto Júlia Tigeleiro



"Os teus olhos, temperados em procuras, deslumbramentos e esperas, dizem-me que é tempo de repousar da vertigem da viagem, de soltar os idiomas interiores alheios às palavras desenhadas na poeira.
Falas-me, baixinho, da liberdade que mora no silêncio do deserto, mas os corpos são seara sequiosa  de
amadurecer no respirar da poesia que se solta da pele.
Dou-te a mão, dás-me a mão. Ainda me falas de liberdade, mas nos teus olhos a luz do deserto adquire outra
tonalidades com
o aroma do trigo maduro."
AC

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

pássaros na solidão do ar...

Foto Júlia Tigeleiro



As mãos

Essa região desconhecida que nos aproxima e afasta ao mesmo tempo.
Perco-me na penumbra do que queria ter gritado e não pude.
O desejo resgata-nos do abismo,
mas também se ergue o que no admite consolo.
Palavras como pássaros na solidão do ar.


Lucía Estrada, in Sul de Nenhum Norte




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

os dias...

Foto Júlia Tigeleiro



"Os dias são feitos de noites intermináveis
de canções que se enroscam ruidosamente ao corpo
e eu trago o inverno a respirar-me junto à face
trago as mão rasgadas
sem bolsos onde se encolherem de frio
é mais do que certo:
se te visse regressar manhã dentro
não sobraria apenas a geometria das árvores em redor do
coração"

Ana C.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

...esta manhã...

Foto Júlia Tigeleiro




" A manhã recusa o sentido que lhe dão os pássaros."

Rui Pires Cabral


...e dos pássaros,  invejo-lhes a subtileza, e leveza de ser e estar...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

o tempo...

Foto Júlia Tigeleiro







como se fôssemos restos de histórias
num ensaio geral de solidões
o tempo é um argumento
que nos fecha a porta



Maria Sousa 



...exercícios para endurecimento de lágrimas...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

o silêncio...

Foto Júlia Tigeleiro


Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas aves que ninguém sabe de onde partiram.

Vasco Gato










quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

só o verde fala neste tempo de silêncio...

Foto Júlia Tigeleiro






somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores,
espera, pensei em folhas e a primavera explodiu-me na boca.

Maria Sousa

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

NEM UM JARDIM...

Foto Júlia Tigeleiro


Não te via chorar há anos
e nem um jardim, como cenário,
tornou o ato menos doloroso de assistir.
Sei que é difícil fazeres o caminho de volta.
Desapareceu, como a casa,
levado pelos ares do desgosto.

Descansa, um dia poderemos falar
sobre quase tudo, menos a vida
que escolhemos ter.


Marta Chaves

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Já as gaivotas tinham partido...

Foto Júlia Tigeleiro


Quando chegaste
ao entardecer
Já as gaivotas tinham partido
Ainda falaste
Baixinho
Da frescura das madrugadas
Mas parte de mim
Em voo planante
Tinha ido com as aves
E a outra
Cúmplice
Iniciara o desatar dos nós.
Quando chegaste
Ao fim da tarde
Só restava a minha ausência.

AC


...e como as aves me encantam...

PERDEMOS REPENTINAMENTE...

Foto Júlia Tigeleiro


perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a  claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas  nos olhou


José Tolentino Mendonça