terça-feira, 22 de março de 2016

dor

Foto Julia Tigeleiro



uma das coisas que aprendera na vida era que uma grande dor afasta outra dor mais pequena.

Julian Barnes, A Mesa Limão


Foto Júlia Tigeleiro

é apenas um pequeno buraco no meu peito, mas sopra nele um vento terrível.

Henri Michaux

domingo, 20 de março de 2016

as estrelas também caem...

Foto Júlia Tigeleiro
As papoila são estrelas que caíram de sono. Elas têm o segredo.
Maria Ângela Alvim




Foto de Júlia Tigeleiro
com tantas estrelas na mão...
- para que serve o fio tremulo em que rola o meu coração?

Cecília Meireles

terça-feira, 15 de março de 2016

à espera do fim...

Foto Júlia Tigeleiro

No bater das horas todos os silêncios são minutos amurados à espera do fim.
Nuno Travanca
Foto Júlia Tigeleiro


Eu nunca soube, mas às vezes ao ler os teus poemas, quase adivinho a palavra em que partiste.
Jorge Melícias

segunda-feira, 14 de março de 2016

MAR

Foto Júlia Tigeleiro


Mar
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia.
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfaz.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo
É porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

















Foto de Julia Tigeleiro




quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez.
gil t. sousa



Foto de Júlia Tigeleiro

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas sao animais
E os animais sao flores.

O mundo silencioso que nao atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso,

Sophia de Mello Breyner Andresen




quinta-feira, 10 de março de 2016

a direçao do voo

Foto de Julia Tigeleiro


Acordei também com os pássaros e estudei a posição em que os bordava nos seus vestidos.
E disse: para que lhes espetas a agulha no coração?
E ela respondeu: para que aprendam a direcção do voo.


Daniel Faria


Foto de Júlia Tigeleiro

Amo o caminho que entendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
e das estações
Mas não me importo de adoecer no teu colo.
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Daniel Faria
Foto de Júlia Tigeleiro

quarta-feira, 9 de março de 2016

Docemente...

Foto de Júlia Tigeleiro



Fecho os olhos.
Doí, às vezes docemente, doí a vida.


José Agostinho Baptista

terça-feira, 8 de março de 2016

Eu gostei mesmo desse teu dançar...


Eu gostei...

Foto de Júlia Tigeleiro

 e dancei...













infinitudes...

Nada nesta vida tem valor se não nos comovermos com o sofrimento dos outros...

Foto de Júlia Tigeleiro

Nas palmas das tuas mãos leio as linhas da minha vida
Linhas cruzadas, sinuosas, interferindo no teu destino
Não te procurei, não me procuraste - ia-mos sozinhos por estradas diferentes
Indiferentes, cruzamos passadas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro
Sorri
Falamos
E, desde então, caminhamos juntos na vida

Cora Coralina



Foto de Júlia Tigeleiro




meninos das estrelas...meninos de ninguém...
Foto de Júlia Tigeleiro

Olhou-me com aqueles olhos enormes e curiosos que  me encantaram a alma. Olhei-o  e perguntei: 
- Dás-me vinte estrelas do teu céu?
Contou e recontou pelos pequeninos dedos das mãos e disse-me: 
- Mas eu só tenho dez estrelas.Oh, está bem, eu dou.
Fiquei maravilhada com aquele corazinho que me dava mesmo o que não tinha. Corri atrás dele a balançar-me ao vento quente de agosto e desde então nunca mais soube de mim...


Foto de Júlia Tigeleiro
muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
abraço que envolve,
palavra que conforta,
silencio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.

e isso não é nada de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
é o que faz com que ela
não seja nem curta
nem longa,
mas que seja intensa,
verdadeira, pura,
enquanto durar.

Cora Coralina




segunda-feira, 7 de março de 2016

saudade


as pétalas brotam
das flores

a minha saudade
de ti

xilre

Foto de Júlia Tigeleiro

crepúsculo dos deuses

Foto de Júlia Tigeleiro


Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exatamente
A palidez de Athena cintilou no dia

Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todas os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas

Celebramos a vitória; a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade

Como golfinhos a alegria rápida
Rodeada de navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exata
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia

Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela essência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
" Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se"."

Sophia de Mello Breyner Andersen

quarta-feira, 2 de março de 2016

se estivesses aqui

Foto de Júlia Tigeleiro

Hoje, a saudade de ti: punhalada
de tinta muito branca,
o cheiro do que é novo, o cheiro da
doença a alastrar
Se estivesses aqui, dirias o meu nome
corrigias-me as coisas, e tudo estava
bem, mesmo que dentro de sentido
opaco
A tinta muito branca, o cheiro
que é do novo, aqui deste café,
corrigem-me a memória:
o cozinhares tão mal, a desarrumação
em tantos cantos, os nomes que criavas
para chamares as coisas
outra coisa
E os pedidos depois,
súplicas do silêncio e do choro,
tenacidade de viver igual,
e não ceder tanto - e não ceder
Hoje, em tão grande saudade,
minha amiga,
nem sei o que me resta:
Sonhar com o telefone a tocar,
e a voz,
ou eu a corrigir-me o hábito
do número -
Ana Luísa Amaral

terça-feira, 1 de março de 2016

de tanto bater meu coração parou

" Tudo o que alguém lhe fez no passado não tem poder sobre o presente. Só você lhe pode dar esse poder".


Oprah Winfrey


Foto de Júlia Tigeleiro


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.
Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta dor de Cabeça ou de coração. Ninguém aguenta estar triste.Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se.
Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos moí mesmo, e nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se nos livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde que enfrentar.Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos, e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."

Miguel Esteves Cardoso

...E PARE DE BATER...