domingo, 28 de fevereiro de 2016

não duvides meu amor

Foto de Júlia Tigeleiro


Não duvides - meu amor - o gato sabe-o.
Os gatos sabem-no sempre, mesmo que nunca ninguém lhes 
confesse o quanto doem os dias de amor mal temperado.
Acredita, eles sabem e, por isso, falam com a janela mais
silenciosa da casa, deixam de alimentar a hora o corpo de pelos tão ternos.
Os gatos sabem-no e são os únicos animais que sentem 
da mesma forma que nós, que amam pessoas com nomes mais ou 
menos possíveis.
E nós somos para os gatos - quando eles amam - o 
parapeito de onde podem observar em segurança os dias
menos cinzentos do ano.
O amor não é inútil. Só os gatos o sabem.

David Teles Pereira



Foto de Julia Tigeleiro

Somos de um lugar em que um gesto arde com o silencio

O nosso olhar foi feito para se misturar com a voz
A desmaiar no poente dos campos.
E como ave, sabemos todas as formas de sufocar a alma.

Somos de um lugar onde os homens se cobrem com asas.

A cada esquina espreitamos para lá dos dias
Tao naturalmente como abandonamos a vida
Por caminhar com as mãos asfixiadas.

Sempre à mesma hora esperamos pelo mesmo barco
E talvez ele nunca faca escala nestes lugares.
Somos a mesma coisa espreitando pelo mesmo lugar
Mas a linha que nos separa neste momento,
Separa-nos para toda a eternidade.

David Teles Pereira

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

tanta coisa sempre silenciosa

Foto de Júlia Tigeleiro

Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, a pensar dentro das criaturas, a viver nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita, mas sim porque me descubro de outra forma. Depois de não me ver há muito, quase esqueço que sou humana. Esqueço o meu passado e sou uma libertação de fim e de consciência, quanto uma coisa apenas vive.Também me surpreendo, com os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.

Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem




Foto de Júlia Tigeleiro


Eras a monotonia do meu amor eterno

Eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia do meu amor eterno, e eu não sabia. Tinha por ti o que sinto nos feriados.Era como a água a escorrer numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio de água a correr, a nuvem no alto, o homem amado a repousar, o amor parado, o feriado, o silencio no voo dos mosquitos. Eras a minha libertação lentamente entediada, a fartura do corpo que não pede e não precisa.

Clarice Lispector, A Paixao Segundo G.H


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

bem lá no fundo

Foto de Julia Tigeleiro - Para AC

No fundo, no fundo
bem lá no fundo,
todos nós gostaríamos
de ver os nossos problemas
resolvidos por decreto

 a partir dessa data,
as mágoas sem remédio
são consideradas nulas
e sobre elas - o silencio perpétuo,

e por lei extinto todo o remorso,
maldito seja quem olhar para trás,
porque para trás não há nada,
e nada mais

mas os problemas 
não se resolvem assim
e problemas têm uma família grande,
que aos domingos
saem todos a passear,
o problema, a sua senhora, 
e os seus pequenotes
probleminhas

Paulo Leminski

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

porque parto...

Foto de Júlia Tigeleiro

escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência, pavor e saudade
o teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite do teu rosto!
corri para o telefone, mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e que me aterrorizou
queria dizer-te que parto
porque te amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer

Al Berto


Foto de Julia Tigeleiro

Nenhum rosto, nenhum pensamento,nenhum gesto inútil. Nenhum desejo - porque o desejo precisa de um rosto. E no lugar daquele que partiu acende-se a noite.

Al Berto
Foto de Júlia Tigeleiro

desconcertante é que
tão grande tristeza caiba dentro de tão pequeno peito.
às vezes morre-se tanto, e tão cedo.
Al Berto

sábado, 13 de fevereiro de 2016

só isso

Foto de Júlia Tigeleiro


não há grandes poetas nem grandes poemas, há palavras que nos agarram no momento certo. só isso.

gil t sousa

Foto de Julia Tigeleiro

tenho pássaros nos olhos. como se ainda fosse muito cedo.

gil t sousa
Foto de Júlia Tigeleiro


foi tudo nesse horizonte afogado. a mesa vazia, o piano calado, o pássaro imóvel. virás por muitos anos, como a espuma dos sonhos perdidos. e a raiva será cantada no paredão da memoria até ficarem macias as pedras do caminho.
e será esse o teu inverno.


gil t sousa

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Sou de outras coisas...


Foto de Júlia Tigeleiro


Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero 
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com mágoa e de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia

Fernando Tordo

Não há outra verdade senão a que invento...

Foto de Júlia Tigeleiro


As circunstâncias da vida valem pelo que valem. Somos nós que lhe aplicamos o poder que as mesmas têm sobre nós.


" Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viria a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, cabendo-lhe escolher os frutos que havia de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados". - Osman Lins(Guerra sem testemunhas)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Há mulheres que ficam...

Foto de Júlia Tigeleiro

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
não pela cor
mas pela vastidão da alma
e trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
ficam para além do tempo
como se a maré nunca as levasse
da praia onde foram felizes
há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen



Foto de Júlia Tigeleiro
Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto ao mar

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto de Júlia Tigeleiro
Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
pisando o luar branco dos caminhos,
sob o rumor das folhas inspiradas?
A tua perfeição nasce do eco dos teus passos,
e a tua presença acorda a plenitude
a que as coisas tinham sido destinadas.
A história da noite é o gesto dos teus braços,
o ardor do vento a tua juventude,
e o teu andar é a beleza das estradas.

Sophia de Mello Breyner Andresen