domingo, 31 de janeiro de 2016

A generosidade

Foto da minha autoria - "A amizade e o único amor que não acaba". Mário Quintana


"O que damos aos outros é vivenciado reconhecidamente como um gesto de amor por nós"


" O amor nada julga, tudo aceita e envolve, em plena liberdade de expressão da vida. Quando nós julgamos, criticamos, nos colocamos acima ou abaixo dos outros, atacamo-nos e perdemos o contacto com o nosso centro de generosidade - o coração.
Ser generoso com verdadeira pureza implica que nos tornemos o Sol da nossa vida, a expressão infinita de amor e que a partilhemos com o mundo, sem  nada esperar que nos mantenha reféns dessa expectativa.A vida serve na excelência aqueles que nada precisam, pois o movimento de "precisar" retira-nos do fluxo da vida que flui, sem interrupções, preenchendo tudo e todos. Aqueles que aos nossos olhos "precisam" mostram-nos o quanto existe em nós que precisa de ser amado e libertado.Nesta consciência o que damos aos outros é vivenciado reconhecidamente como um gesto de amor por nós, pois dar é amar, independentemente do que "parecer ser o objecto" que justifica esse impulso. Quando nos amamos em tudo o que damos, a vida corre para nós e liberta o mundo que nos rodeia, das " necessidades" e " limitações" que alimentavam as nossas próprias carências." - Isabel Ferreira


PARA TI

Foto da minha autoria -Um olhar sobre o coração que se dá


"toquei no nada
e para ti foi tudo

para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós 
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos..."
Mia Couto


Foto de Júlia Tigeleiro

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A solidão também se aprende...

Foto de Júlia Tigeleiro




A vida é generosa e exigente

"Como gosto de afirmar, mais do que as respostas que vamos obtendo na vida, são as perguntas que nos fazem caminhar e ir descobrindo mais e mais sobre quem somos, o que queremos, e qual é mesmo a nossa vocação ( leia-se propósito) aqui na terra.

A vida não é madrasta e injusta connosco. É tão generosa, como exigente, quando se trata dos anseios da nossa alma, entre os quais o desapego que precisamos conquistar para nos libertarmos de tudo o que não é essência em nós. Para que isso aconteça, é vital aceitar fazer um profundo processo de transformação. Durante o tempo necessário, (que não é o que nós queremos, mas sim o que precisamos), iniciamos um caminho normalmente solitário, que alguns descrevem como uma "espécie de travessia no deserto". Esta metáfora representa uma imagem do nosso inconsciente, para a sensação que podemos ter de estar numa árdua caminhada, onde nos sentimos cansados, perdidos e expostos a condições climatéricas adversas. Palmilhamos já dezenas de quilómetros, e a única paisagem que visualizamos foi a areia escaldante de um deserto que parece não ter fim. Como nem sequer colocamos a possibilidade de termos sido nós a fazer aquela escolha, é fácil revoltarmo-nos  com a vida, apontando o dedo ao maldito do destino, que parece mover-se na direção contrária ao que queremos, contrariando e amaldiçoando os nossos maiores desejos e expetativas.


Atravessar o deserto é atravessar a solidão. Requer rendição e coragem ao mesmo tempo.


Na verdade, a única forma de gerir esta caminhada é aceitar que ela está certa, e que nós, no tempo exato, vamos perceber o seu propósito nas nossas vidas. Resistirmos a esta travessia, só contribui para atrasar o processo, e para o " não cumprimento" do seu propósito em nós. Aprender a estar só é vital para o (re) encontro com a nossa essência. Não adianta fugir disto, pois mais cedo ou mais tarde esta é uma aprendizagem que precisamos mesmo de fazer.


Se "estamos sós" é porque ainda não sabemos estar acompanhados. A ansiedade de companhia deixa-nos ainda mais sós". - Cristina Leal

sábado, 23 de janeiro de 2016

Poema ao jantar...

Foto de Júlia Tigeleiro


Olá, que estás a fazer?
O jantar.
O que é que vais fazer?
Um poema…
Só um poema, ou alguma coisa para acompanhar?
Sim, vou juntar-lhe o tempo…
e meia dúzia de pensamentos, dos mais pequenos…
Posso ajudar-te?
Claro, fazemos para os dois.
Passa-me aquelas palavras…
Quais?
As que estão por aí sem norte, desarmadas e frias.
E servem?
Vais ver, tenho um truque que as torna de ler e chorar por mais.
Não estão duras?
Com um pouco de paciência e cozedura lenta, amolecem.
Espera, preciso de bater primeiro o coração.
Queres que bata?
Bate comigo, os dois somos o número ideal.
Põe mais beijos…
mais, não deixes cair muitos de uma vez.
Tem já uma bela cor!
estou a ficar cheio de fome.
então pega no meu corpo e aquece-o,
Não deixes queimar, mexe sempre os olhos,
repara na cidade e nas sombras que diminuem.
cuidado não vá engrossar esse modo de ser.
Já podemos juntar tudo?
Falta-me a ternura, não sei se restou alguma,
tive um poema enorme a semana passada.
espera, já cresceram mais umas folhas.
Apanha com cuidado, para a deixar crescer outra vez.
Agora basta que me tenhas e me queiras,
Junta o ramo de cheiros que a tua memória colheu
Cheira, como é boa essa pitada de loucura que juntaste.
Vá, senta-te, Vou servir.
Pão?
Não, prefiro assim.
Traz o vinho
Tinto?
Claro, e tu senta-te, não quero começar sem ti.
Jorge Bicho

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

As brumas...

Os perigos das brumas

Quem não gosta de brumas? Nelas somos transportados para o mundo das quimeras. Ah, essas brumas que nos iludem o olhar e nos completam o desolhar. São ilusórias e matreiras como raposinhas velhas.Cuidado, muito cuidado, porque se nos apanham, farão connosco o que fizeram com D. Sebastião. Resgataram-no com a promessa de o devolver numa manhã de nevoeiro, mas entretanto, já se passaram quase 500 anos e D. Sebastião continua embrenhado nessas brumas mentirosas e tentadoras….!Ah, brumas…doces brumas…!
Foto de Júlia Tigeleiro
O Medo
"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo mais forte de todos os medos, é o medo do desconhecido."- H.P.Lovecraft

Foto de Júlia Tigeleiro
Preparação
"Avalon estará sempre ali para todos os que puderem e souberem encontrar o caminho, por todos os séculos e  para além dos séculos.Se não o encontrarem, isso talvez seja um sinal de que ainda não estão prontos para o isso." - Frase do filme as brumas de Avalon
Foto de Júlia Tigeleiro

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

As aves partiram

As aves partiram e com elas o verão, deixando atrás de si a nostalgia do outono e a promessa do inverno.Psiuuuu...sossega...!As aves partiram, mas eu fiquei aqui...!
Foto de Júlia Tigeleiro

Foto de Júlia Tigeleiro

"São horas de voltar. Tua já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas."

Maria do Rosário Pedreira

Não basta querer voar...

Infelizes daqueles que pensam que podem voar como pássaros



Olhai os pássaros,esses seres celestiais que me encantam e  fascinam.Invejo-os por circularem livremente nesses céus, sem amarras ou grilhões, que os aprisionem a alguma coisa ou a alguém. São sem dúvida a mais pura manifestação de liberdade que conheço. Eles  pousam, levantam voo, passam e  esquecem…!!!
 
Foto de Júlia Tigeleiro

“Acreditava que voavam os pássaros
como voam as tuas mão nas janelas do meu peito
fingia-me de morto
apenas para perceber a cor das tuas lágrimas
acreditava que voavam as flores
como voavam os teus lábios nos meus lábios
acreditar
acreditando que as noites são pedacinhos de pano
com beijos em papel…
acreditava que voavam os teus seios
nas minhas mãos de silabas adormecidas
eu, eu acreditava


acreditando
(…)
acreditava que dormias de pé e te enrolavas no cacimbo
acreditava que voavam os pássaros
como voavam as tuas coxas sobre o trapézio da madrugada…


acreditar, eu acreditava
mas não te amo como amo os pássaros
acreditava que voando como os pássaros
eu poderia voar como o amor sobre o mar ao cair da noite
acreditava que vias nas minhas palavras as fotografias de ontem
enquanto brincávamos sobre as bananeiras do teu quintal…

acreditava que voavam os pássaros
como voam as palavras em versos esfomeados
distorcidos
infelizes como eu, por acreditar nos pássaros voando como nós
eu, eu acreditava.”

Francisco Fontinha
Foto de Júlia Tigeleiro


"Ouve que estranhos pássaros de noite
tenho defronte da janela
pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
o peito cor de aurora, o bico roxo,
falam-me de noite, trazem dos abismos da noite lenta e quieta
palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
e a respiração do terror desce
das suas asas pesadas."

Sophia de Mello Breyner Andresen








quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Desertos D´alma

Foto de Júlia Tigeleiro

Esta semana li um artigo que dizia que cientista de várias áreas tinham chegado à seguinte conclusão: As pessoas mais felizes, não eram as que tinham as roupas ou os sapatos mais bonitos, a casa mais confortável e espaçosa, o carro ou telemóvel topo de gama, ou a conta bancária mais recheada. Não eram, antes pelo contrário.As pessoas mais afáveis, ternas, simpáticas e felizes eram precisamente aquelas que detinham histórias de vida de grande sofrimento interior. Que maravilhosa descoberta, saber que para se ser feliz basta ter força de vontade e querer sê-lo. Que fantástico constatar que, afinal a "dor" e o sofrimento nos ensinam a caminhar, nos elevam espiritualmente, e nos transformam nessas criaturas magníficas, que todos desejamos encontrar pela frente de manhã...sempre!!!






Crónicas Imperfeitas




"não achas que chegou a hora? um dia me dizes que já não há nada. mais nada no lado de fora do tempo. os anos, sabes? essa  maré que nos salva e afoga, que ora nos traz, ora nos leva. o amor ou a dor. sempre o amor ou a dor...ou um lugar, ou  a  hipótese  de um lugar qualquer ponto no universo onde a estrada acabe. onde o tempo acabe. onde toda a memória possa pairar como um céu sobre o passado. sobre todos os passados. tu sabes. um dia ainda me dizes tudo isto outra vez. não achas que chegou a hora? os navios ainda erram na linha de azul que nos amarra à terra. a estas janelas, a este dom de olhar. à dádiva de ver lá e para cá, os navios, o mar, estes pássaros que o sol arrasta. esta luz antiga em que crescemos. que nos escreveu na pele o costume de adormecer e despertar como se as horas chegassem de dentro e morressem ainda mais dentro e isso fosse a marca, a escritura solene que te torna dono do que sempre te pertenceu."

gil t. sousa
Foto de Júlia Tigeleiro














terça-feira, 19 de janeiro de 2016

É sempre tudo tão igual...

Foto da minha autoria- Um olhar sobre o tempo







Às vezes parece-nos tudo sempre tão igual, tão maçador e rotineiro, que acabamos por arrastar os pés pela vida, exatamente como fará uma criança cansada que pede colo à sua mãe. É verdade que o tempo não pára, e que até somos nós que nele paramos, ou ao contrário, corremos para o conseguir acompanhar. Não obstante, nada é igual, e estamos sempre a partir e a chegar de, ou a qualquer lugar/situação. Cada dia que vivemos é diferente do anterior, porque o anterior é passado e o novo é presente. Independentemente daquilo que a vida nos der, o segredo para a amar é a gratidão.  

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E tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa dos meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido


Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo








segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Os espelhos da minha alma

A Tela

 

 Gosto de pintar com a mesma paixão que gosto de viajar, de ler, de poesia, de fotografar, de estar viva...!


  Entro no teu quarto, como se

entrasse no mar. Um temporal de perguntas

enrola os teus cabelos. Lanças-te

contra as ondas de um sonho antigo,

e abres a porta da varanda

para te sentares à cadeira

do oriente, apanhando o vento

da tarde. " Não te levantes, digo,

e deixa que os teus olhos se libertem

de sombra, depois de uma noite

de amor, para me abrigarem

da luz estéril da madrugada." Mudas

de posição, como se me tivesses 

ouvido, e o teu corpo enche-se

de palavras, como se fosses

a taça da estrofe.

Nuno Júdice


Toto - Africa








                                                A música possível para uma paixão impossível...

domingo, 17 de janeiro de 2016

Tu quieres volver - Sarah Brightman - Cover Ana Gonzalez

O passado envelhece-nos...


O passado envelhece-nos



Foto de Júlia Tigeleiro


Tenho uma amiga que diz que o segredo para se manter jovem e nunca olhar para trás." O passado envelhece-nos", repica constantemente. Não sei se isso e bem assim, mas o que eu acho e que o tempo  não volta para trás, venha  o que vier. Podemos fazê-lo na nossa cabeça, mas fisicamente  nada  se  repete na vida, por muito que tentemos "reiterar" o que já se foi  para sempre. Voltar atrás daria muito jeito em certas situações, mas tudo muda a cada instante e a roda não para." - Yosef - Jose Cunha Rodrigues


Encontrei isto para contrariar o " passado envelhece-nos"...


" Há  vária  gente  que  não  gosta  de  evocar  o  passado. Uns  por  energia,
disciplina prática e arremesso. Outros por ideologia progressista,visto que
todo o passado é reacionário. Outros por superficialidade ou secura de pau.
Outros por falta de tempo, que todo ele é preciso para acudir ao presente e o
que sobre, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado é a 
ternura  e  a  legenda, o   absoluto   e  a  música, a  irrealidade sem  nada  a 
acotovelar-nos. É  um  aceno  doce  de melancolia a fazer-nos sinais por sobre 
tudo. Tanta hora gasto na simples evocação. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. Há a filtragem do tempo para purificar esse presente até à fluidez impossível, à sublimação do encantamento, à incorruptível verdade que nele se oculta e é a sua única razão de ser. O presente é cheio de urgências mas ele que espere, Há tanto que ser feliz na impossibilidade de se ser feliz. Sobretudo  quando o futuro já se lhe toca com a mão. Há tanto que ter vida ainda, quando já se a não a tem..."           

Virgílio Ferreira