sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

tinham...

Foto Júlia Tigeleiro


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados,
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

o choupo

Foto de Júlia Tigeleiro



"dizer-te é inclinar-me
sobre o
silêncio

faz que eu seja
o choupo
todo dobrado
na face pressentida
das águas"


José Tolentino Mendonça


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

leis no coração do caos...

Foto Júlia Tigeleiro


Se urdimos leis no coração do caos, foi para as pernas não
tropeçarem uma na outra, foi para os braços não
enrolassem o pescoço, foi para que o destino ficasse mais
longe.

Henrique Manuel Bento Fialho





Uma das mais bonitas melodias de Natal

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Falso lugar...

Foto de Júlia Tigeleiro


"tenho pássaros nos olhos, como se ainda fosse muito cedo."


gil t. sousa

domingo, 11 de dezembro de 2016

Era o tempo...

Obrigada AC




Foto Júlia Tigeleiro



Era o tempo das romãs e do frio que lhes rachava os corações... 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O VENTO AGITA AS SOMBRAS...

Foto Júlia Tigeleiro

na minha mão, lança-me
vultos, um nome em chamas, versos
afiados contra os dedos.
sempre pressenti a distância mínima entre o poema e o medo
de não saber regressar a casa.


Renata Correia Botelho


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A MINHA SOLIDÃO.

Foto de Júlia Tigeleiro




"Cortaram os trigos. Agora
a minha solidão vê-se melhor."


Sophia de Mello Breyner Andresen



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A TARDE ESGOTAVA-SE...

Foto Júlia Tigeleiro


A tarde esgotava-se em Rodas,
abril, como todas as promessas cumpridas, perdia interesse
e eu vi correr as tuas lágrima até ao mar.
Sem perceber nada
nem a tua melancolia nem a migração das aves
nem o assobio dos barcos nem o rosto envelhecido dos
capitães,
fechei os olhos.
Ao voltar a abri-los, não sei se eu era diferente
ou se o porto tinha mudado
mas os barcos ancorados embelezavam com a noite.
Tu que olhas para as colinas
não viste as minhas lágrimas a acender as primeiras lâmpadas.


Lauren Mendinueta


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Ninguém é de ninguém...

Foto  Júlia Tigeleiro



"Passou depressa
o nosso tempo sem palavras, quando só
o tato contava

E sabíamos ainda
como o amor pode ser grande
quando ninguém é de 
ninguém."

Hans-ulrich Treichel


... e nas mãos de um mundo insano, entregamos o nosso destino...






quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ABRE A JANELA...

Foto Júlia Tigeleiro


"Abre a janela
respira o ar
antes que seja tarde
ou o dia passe
ao largo
dos sentidos..."


Manuel A. Domingos

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O Silêncio.

Foto de Júlia Tigeleiro




O silêncio é como se fosse água.
Daquela água pura da montanha que se bebe diretamente pelo 
coração.

Jorge Sousa Braga




...e é tão fundo e escuro o silêncio que aqui se sente...





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

É PRECISO ESQUECER...

Foto de Júlia Tigeleiro

Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los.
Os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.

Manuel Pina


...e é aqui,entre a poeira do caminho que me esqueço de esquecer, e choro...

segunda-feira, 25 de julho de 2016

É tão difícil guardar um rio...

Foto de Júlia Tigeleiro


É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós...


Jorge Sousa Braga

Por dentro de ti...

Foto de Júlia Tigeleiro


Só por dentro de ti há corredores

e em quartos interiores o cheiro a fruta

que veste de frescura a escuridão...


Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão-Ferreira



quinta-feira, 7 de julho de 2016

Chegaste...

Foto de Julia Tigeleiro
chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde as pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia
era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos

chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em grito pelos telhados
e Deus se desabita

chegaste tão dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço


Pedro Sena-Lino

sexta-feira, 24 de junho de 2016

É tarde...


Foto de Júlia Tigeleiro



nenhum sono
repõe o que não vivi


agora resta um único desfecho:
de novo acordar por dentro

e acordar sempre
até que volte a ser cedo.

Mia Couto

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Era tão grande o coração...

Foto de Júlia Tigeleiro


"Esta noite morri muitas vezes, à espera de um sonho, que viesse de repente e às escuras, e que dançasse com a minha alma, enquanto fosses tu a conduzir o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo, toda a espiral das horas que se erguessem no poço dos sentidos. Quem és tu, promessa imaginária que me ensina a decifrar as intenções do vento, a música da chuva nas janelas sob o frio de fevereiro? O amor ofereceu-me o teu rosto absoluto, projetou os teus olhos no meu céu e segreda-me agora uma palavra: o teu nome - essa última fala da última estrela quase a morrer, pouco a pouco embebida no meu próprio sangue e o meu sangue à procura do teu coração."

Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 7 de junho de 2016

PROFUNDEZAS....

Foto de Júlia Tigeleiro



"Tentei descobrir na alma alguma coisa mais profunda do que não saber nada sobre coisas profundas.
Consegui não descobrir".

Manoel de Barros


...e nestas profundezas apenas encontrei o silêncio e foi com ele que me encantei...





segunda-feira, 23 de maio de 2016

Efemeridade do tempo...

Foto de Júlia Tigeleiro

Foto de Júlia Tigeleiro

Foto de Júlia Tigeleiro

Foto de Júlia Tigeleiro


Fiquei aqui sozinha
a sentir o ser solitário
em que me transformei...

Fiquei aqui vaga
nos meus pensamentos
entre sonhos e recordações
do que foi...

Fiquei aqui à espera
que o vento me levasse
até aos teus braços
entre flores, sorrisos
e alegrias...

Fiquei perdida no tempo
ou foi o tempo
que de mim se perdeu
já nem sei bem...

Fiquei para trás
meu amor
convicta que o tempo
jamais apagará
o nosso tempo...
JC

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Colorir



Adoro...

Colorir desenhos...

E desejos para amanhã
Para o dia a seguir
E para outro que ainda 
Há-se vir... 


Trago sempre
Novos lápis comigo
Para colorir amizades
Que são flores
No meu caminho
E uma borracha
Para apagar inimizades...


Procuro fundir
Os mais secretos sonhos
E desejos
Nas silhuetas
Que com eles pinto... 


E assim...
Continuar a tentar
Encontrar o meu caminho
Por esses lugares
Onde me perco...
E de novo me encontro...


Eles
São o espelho
que refletem
As minhas memórias
No forma
E no tempo...


Com eles
pintarei uma pobre ave
Que voou de terras
longínquas...
Já cansada e envelhecida
E pousou
No único lugar
Que ainda não conhecia
O meu coração...


Vou pintar o arco-íris
Em dias cinzentos
De todas as cores 
Que tem em si...
Com toda a sua luz
E magia...


De vermelho, laranja...
Amarelo e verde...
As sombras de viagens
Que já fiz...
E que ainda sonho fazer...


De safira
Um sorriso
Sempre luminoso e azulão
Brilhante...quente...
Num dia de luz
E de cores de verão...


De rubi
Porque é a pedra
E a cor do amor...
Uma boca linda e amada
Que trará baton
Para colorir
Cada beijo TEU...


E se...
A noite chegar
Pintarei a lua...as estrelas
E o luar...
Porque em ti
Sem pudor...anoiteci...
E em teus braços adormeci...


Por último...
Retocarei a vida
Apenas...porque há muito...
Ela já foi pintada...


E como para tudo
Há uma solução...
Ela tem que ser vivida
De tal forma
Que a cada instante
E a cada fraqueza
Um retoque colorido
A FORTALEÇA...




terça-feira, 10 de maio de 2016

NEGUEI-TE...


Às vezes, nos momentos trágicos, já não é contigo que eu deparo - é com outro ser que assiste sempre, como um espectador, a todos os meus exageros. Deitas-te comigo, levantas-te comigo, ferrada como um punhal - e não existes. Neguei-te. Expliquei-te. Reduzi-te às tuas verdadeiras proporções - e tu não existias! Atormentaste-me e fizeste-me sofrer mesmo quando já compreendera que não existias. E agora mesmo, quando o universo é outro universo, ainda encarniças sobre mim como um fantasma.
Escusas de te rir - tu não existes.

Raúl Brandão


domingo, 3 de abril de 2016

Primavera

Foto de Júlia Tigeleiro
Contam que as sombras permanecem

a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-mo dos gatos.
Dispo-me e vou dormir lá fora com a aves.

Maria do Rosário Pedreira




Foto de Júlia Tigeleiro
porque sou da terra
preciso da chuva
e para ser verde
de ti tenho sede.

Maria de Lourdes Hortas







terça-feira, 22 de março de 2016

dor

Foto Julia Tigeleiro



uma das coisas que aprendera na vida era que uma grande dor afasta outra dor mais pequena.

Julian Barnes, A Mesa Limão


Foto Júlia Tigeleiro

é apenas um pequeno buraco no meu peito, mas sopra nele um vento terrível.

Henri Michaux

domingo, 20 de março de 2016

as estrelas também caem...

Foto Júlia Tigeleiro
As papoila são estrelas que caíram de sono. Elas têm o segredo.
Maria Ângela Alvim




Foto de Júlia Tigeleiro
com tantas estrelas na mão...
- para que serve o fio tremulo em que rola o meu coração?

Cecília Meireles

terça-feira, 15 de março de 2016

à espera do fim...

Foto Júlia Tigeleiro

No bater das horas todos os silêncios são minutos amurados à espera do fim.
Nuno Travanca
Foto Júlia Tigeleiro


Eu nunca soube, mas às vezes ao ler os teus poemas, quase adivinho a palavra em que partiste.
Jorge Melícias

segunda-feira, 14 de março de 2016

MAR

Foto Júlia Tigeleiro


Mar
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia.
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfaz.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo
É porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

















Foto de Julia Tigeleiro




quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez.
gil t. sousa



Foto de Júlia Tigeleiro

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas sao animais
E os animais sao flores.

O mundo silencioso que nao atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso,

Sophia de Mello Breyner Andresen




quinta-feira, 10 de março de 2016

a direçao do voo

Foto de Julia Tigeleiro


Acordei também com os pássaros e estudei a posição em que os bordava nos seus vestidos.
E disse: para que lhes espetas a agulha no coração?
E ela respondeu: para que aprendam a direcção do voo.


Daniel Faria


Foto de Júlia Tigeleiro

Amo o caminho que entendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
e das estações
Mas não me importo de adoecer no teu colo.
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Daniel Faria
Foto de Júlia Tigeleiro

quarta-feira, 9 de março de 2016

Docemente...

Foto de Júlia Tigeleiro



Fecho os olhos.
Doí, às vezes docemente, doí a vida.


José Agostinho Baptista

terça-feira, 8 de março de 2016

Eu gostei mesmo desse teu dançar...


Eu gostei...

Foto de Júlia Tigeleiro

 e dancei...













infinitudes...

Nada nesta vida tem valor se não nos comovermos com o sofrimento dos outros...

Foto de Júlia Tigeleiro

Nas palmas das tuas mãos leio as linhas da minha vida
Linhas cruzadas, sinuosas, interferindo no teu destino
Não te procurei, não me procuraste - ia-mos sozinhos por estradas diferentes
Indiferentes, cruzamos passadas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro
Sorri
Falamos
E, desde então, caminhamos juntos na vida

Cora Coralina



Foto de Júlia Tigeleiro




meninos das estrelas...meninos de ninguém...
Foto de Júlia Tigeleiro

Olhou-me com aqueles olhos enormes e curiosos que  me encantaram a alma. Olhei-o  e perguntei: 
- Dás-me vinte estrelas do teu céu?
Contou e recontou pelos pequeninos dedos das mãos e disse-me: 
- Mas eu só tenho dez estrelas.Oh, está bem, eu dou.
Fiquei maravilhada com aquele corazinho que me dava mesmo o que não tinha. Corri atrás dele a balançar-me ao vento quente de agosto e desde então nunca mais soube de mim...


Foto de Júlia Tigeleiro
muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
abraço que envolve,
palavra que conforta,
silencio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.

e isso não é nada de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
é o que faz com que ela
não seja nem curta
nem longa,
mas que seja intensa,
verdadeira, pura,
enquanto durar.

Cora Coralina




segunda-feira, 7 de março de 2016

saudade


as pétalas brotam
das flores

a minha saudade
de ti

xilre

Foto de Júlia Tigeleiro

crepúsculo dos deuses

Foto de Júlia Tigeleiro


Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exatamente
A palidez de Athena cintilou no dia

Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todas os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas

Celebramos a vitória; a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade

Como golfinhos a alegria rápida
Rodeada de navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exata
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia

Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela essência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
" Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se"."

Sophia de Mello Breyner Andersen

quarta-feira, 2 de março de 2016

se estivesses aqui

Foto de Júlia Tigeleiro

Hoje, a saudade de ti: punhalada
de tinta muito branca,
o cheiro do que é novo, o cheiro da
doença a alastrar
Se estivesses aqui, dirias o meu nome
corrigias-me as coisas, e tudo estava
bem, mesmo que dentro de sentido
opaco
A tinta muito branca, o cheiro
que é do novo, aqui deste café,
corrigem-me a memória:
o cozinhares tão mal, a desarrumação
em tantos cantos, os nomes que criavas
para chamares as coisas
outra coisa
E os pedidos depois,
súplicas do silêncio e do choro,
tenacidade de viver igual,
e não ceder tanto - e não ceder
Hoje, em tão grande saudade,
minha amiga,
nem sei o que me resta:
Sonhar com o telefone a tocar,
e a voz,
ou eu a corrigir-me o hábito
do número -
Ana Luísa Amaral