segunda-feira, 7 de março de 2016

crepúsculo dos deuses

Foto de Júlia Tigeleiro


Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu
E Homero fez florir o roxo sobre o mar
O Kouros avançou um passo exatamente
A palidez de Athena cintilou no dia

Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todas os templos
E para o fundo do seu império recuaram os Persas

Celebramos a vitória; a treva
Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos
O grito rouco do coro purificou a cidade

Como golfinhos a alegria rápida
Rodeada de navios
O nosso corpo estava nu porque encontrara
A sua medida exata
Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz
O mundo era mais nosso cada dia

Mas eis que se apagaram
Os antigos deuses sol interior das coisas
Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas
Somos alucinados pela essência bebidos pela ausência
E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:
" Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado
Phebo já não tem cabana nem loureiro profético nem fonte melodiosa
A água que fala calou-se"."

Sophia de Mello Breyner Andersen

2 comentários:

  1. Luxuoso post.

    Vejo uma paixão pelo sublime
    pela distância do infinito
    p'la Sophia deusa da poesia
    e a imagem é espada que esgrime

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  2. Grata Agostinho pelo comentário tão "rico".

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