sexta-feira, 6 de julho de 2018

o verão deixa-me os olhos mais lentos...


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.

As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas – longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar

a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor

à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio – nada

aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,

à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

Mª Rosário Pedreira, in “A Casa e o Cheiro dos Livros”

10 comentários:

  1. E que partilha, Julia! Neste poema se aprende o oficio de escrever bem.
    Texto alado mas preso ao chão do viver. Bela tessitura poética. E a fotografia impregnada da poesia que emana do poema de Maria do Rosário Pedreira. Obrigado por oferecer esta arte poética.

    Um abraço, Júlia!

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    Respostas
    1. Obrigada Poeta pelas visitas frequentes ao meu espaço de reflexão espiritual. Um abraço Carlos.

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  2. Um texto bem organizado e muito bem contruído. Gostei de ler.
    A imagem é belíssima.
    Bom fim de semana Julia!

    Abração!

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  3. Oi Julia querida

    Texto maravilhoso.
    Também tenho sonhos que não conto a ninguém...

    Beijos e uma semana cheia de alegrias.

    Ani

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  4. Passando pra deixar um beijo e desejar uma semana linda e cheia de realizações.

    Ani

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  5. Um abraço bem grande como o oceano que nos separa. Grata pela ternura.

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  6. Um belo momento. Excelente partilha
    Brisas doces

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  7. Um belíssimo poema ilustrado por uma preciosa fotografia.
    Ou será ao contrário.
    Não sei, mas vejo
    a simbiose feita perfeita,
    almas que se tocam/tocaram
    independentemente das coordenadas
    e das artes dadas.

    Bj.

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  8. Pura poesia... em imagem e palavras... neste post sublime...
    Adorei!!! Beijinho
    Ana

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