segunda-feira, 14 de março de 2016

MAR

Foto Júlia Tigeleiro


Mar
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia.
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfaz.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo
É porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

















Foto de Julia Tigeleiro




quando a maré se afasta é possível escrever tudo outra vez.
gil t. sousa



Foto de Júlia Tigeleiro

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas sao animais
E os animais sao flores.

O mundo silencioso que nao atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso,

Sophia de Mello Breyner Andresen




2 comentários:

  1. Boa noite, Júlia Tê.
    Bom, mais!

    Um mergulho na poesia
    - a magia de Sophia -
    por entre algas e corais
    e azuis e verdes
    das águas e do ar
    que há no mar.
    Fique-se aqui
    o excesso é demais.

    ResponderEliminar
  2. "...e o mundo é tão grande que cabe todo nesta janela sobre o mar...". Obrigada...muito!!!

    ResponderEliminar