quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

tanta coisa sempre silenciosa

Foto de Júlia Tigeleiro

Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, a pensar dentro das criaturas, a viver nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita, mas sim porque me descubro de outra forma. Depois de não me ver há muito, quase esqueço que sou humana. Esqueço o meu passado e sou uma libertação de fim e de consciência, quanto uma coisa apenas vive.Também me surpreendo, com os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.

Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem




Foto de Júlia Tigeleiro


Eras a monotonia do meu amor eterno

Eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia do meu amor eterno, e eu não sabia. Tinha por ti o que sinto nos feriados.Era como a água a escorrer numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio de água a correr, a nuvem no alto, o homem amado a repousar, o amor parado, o feriado, o silencio no voo dos mosquitos. Eras a minha libertação lentamente entediada, a fartura do corpo que não pede e não precisa.

Clarice Lispector, A Paixao Segundo G.H


4 comentários:

  1. Ah, essas fotos, Júlia, quanta sensibilidade no apuro...!

    Uma boa semana :)

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    1. Obrigada Agostinho. Eu também me encanto no seu cantinho. Boa semana e abraço.

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  2. Duas magníficas escolhas dos textos da Clarice.
    Mas as tuas fotos são excelentes, qual delas a melhor.
    Bom resto de domingo e boa semana, querida amiga Júlia.
    Beijo.

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